quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Canibalismo

Beija-me outra vez, e outra, e mais!
E outras mais! Beija-me um beijo infinito.
Um beijo furta-cor, sagrado rito
De amor e de fulgor celestiais.

Beija-me com desejos canibais!
Dá-me mordidas num rito maldito,
Entre gritos de arpejo erudito,
Presentes dos teus lábios imortais.

E transcenda e ascenda, e então, acenda!
O beijo em labareda de oferenda
Que transubstanciará nosso calor.

Beija-me agora, como ontem beijaste.
Com furor e violência maltrataste
Meus lábios com prazer e muito amor.

V.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Caça ao tesouro

Procuro-te nos meus sonhos a fio,
Correndo entre as Antusas, ofegante,
No jardim do meu sonho hesitante
De amor cortante como vento frio.

No sonho, ouço o alaúde e o assobio
De quem observa estático e distante
A inevitável queda fulminante
Numa paixão em profundo desvario.

Co'a bênção de bailantes Ninfas-flores,
Marchando heroico ao som dos trovadores,
Carrego-te comigo na memória.

Passo a passo, mais um passo insensato,
Fiz-te meu grão tesouro, doce Erato:
O x marcado nesta viagem flórea.

V.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Apoteose

Eu quero escrever meus versos em ti;
Teu corpo será meu tomo sagrado.
Sigo completamente hipnotizado
Em direção a um forte frenesi.

Considero-me bem-afortunado
Pois te amei e o teu amor eu conheci.
À tua divina luz não resisti,
Fui apoteoticamente arrebatado.

Apaixonei-me ali, perdidamente,
Na tua propriedade iridescente:
Uma aura faiscante e esplendorosa.

Arco-íris que me guia ao pote d’ouro,
Confiarei na tua Vênus em Touro
Escandalosamente carinhosa.

V.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Ó Quimera! Minha Quimera!

Ó Quimera, ascende! Ó Quimera!
Levar-te-ei ao infinito, além-céu,
Lá onde as casas são favos de mel
E é permanentemente primavera.

Pois de ti não é digna esta quase esfera.
Planeta azul vagando triste ao léu,
Girando como eterno Carrossel,
Cuja mediocridade é o que impera.

Este mundo tão gris não te merece.
Teu lugar é Arcádia, doce Fada,
Na imortalidade da poesia.

És livre para amar, vai e floresce,
Sê quimericamente exagerada
E nunca negocies a tua alegria.

V.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Soneto da perdição

Eu mergulhei na eterna Danação.
Por teus beijos minh'alma eu vendi.
Não temo o calor pois muito já ardi,
Com o teu toque sendo a ignição.

E toda a sanidade que eu perdi
Foi no teu mar, bravia rebentação.
Nas grandes ondas entrei em combustão,
No oceano do teu colo, transcendi.

Entre estrelas-do-mar e caravelas,
Belos corais em vivas aquarelas
Naquela tela alvíssima, o teu rosto.

Do sonho à tentação, um novo sonho,
Do mar à perdição do amor, suponho.
No inferno, levo na boca o teu gosto.

V.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Amor Cósmico

Amo-te em silêncio,
De longe, tão, tão distante.
Amo-te em arroubos -
       Amo-te doutra galáxia,
       Do centro da Supernova.

Nos aglomerados,
E nos sistemas solares,
Poeiras, satélites -
       No céu serão conectados
       Belos pontos cheios de vida.

Amor cosmológico
Numa precessão errática.
Amor fora de órbita.
       Amo-te dos céus, do espaço.
       Amo-te do mar, da Terra.

Amo-te em silêncio.
Mas a minha poesia
O silêncio quebra -
       Reverbera em versos livres
       Porém com muitas amarras.

Amo-te de novo,
E de novo… e outra vez,
Mas já não te digo -
       Não sabes que te amo tanto,
       Que amo astronomicamente.

Amo cada estrela
Que orbita em aglomerados
Por todo o teu corpo -
       Corpo cintilante, cósmico.
       Corpo radiante, alquímico.

V.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Soneto dos olhos que riem

Existe algo divino no teu olhar.
Teus olhos sorridentes são poesia,
Possuem hipnotizante simetria
Como uma bela nuvem estelar.

Personificação do que é Sonhar,
Nova definição de Fantasia.
Ainda não existe uma teoria
Que este olhar consiga explicar.

Eu quero mergulhar neste sorriso,
Perder completamente o juízo,
Achar paz nos teus olhos de avelã.

Leio-te em poesias, ardo em desejo.
E quando sorris, és tudo que vejo:
Minha Vênus que brilha de manhã.

V.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Floral frutado

E como a primavera as flores ama,
Amo-te também, a ti e ao teu perfume.
Guia-me como um som em alto volume
À viagem encantada que me chama.

Pelo teu cheiro o meu coração clama.
Sou teu como da noite é o vaga-lume.
Fulminante paixão em perene flume
Afoga o peito que por ti se inflama.

Floral frutado, doce caramelo,
Que quando me atravessa eu desmantelo
E perco-me em desejos proibidos!

O teu onírico aroma é surreal,
Eu nunca conheci nada igual,
Entorpece cada um dos meus sentidos.

V.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Monólogo de uma folha em branco

Já fui vida. Agora não sou mais.
Ornamentava o mundo com as flores
De pétalas sedosas, multicores,
Que em mim nasciam em belos fractais.

Já fui vida. Agora não sou mais.
Sou apenas uma folha de papel
Em branco, ainda virgem de pincel,
Com saudades dos meus padrões florais.

Antes eu tinha cores e sabores,
Agora, sou apenas celulose
Processada, prensada e em psicose,
Retroalimentando as minhas dores.

Sigo esperando na gaveta escura,
Longe de qualquer raio quente de Sol,
E tentando encontrar neste crisol
Uma saída para esta tortura.

Onde estão minhas flores? Meus sabores?
E o formoso Sol que me alimentava?
O Sol que as minhas folhas esquentava
E que dava ao meu corpo várias cores.

Já fui vida. Agora estou vazia.
Fui esvaziada de significados.
Danada folha em branco nos dois lados
Que anseia viver outra vez um dia.

Darias tu um fim à minha agonia?
Põe aqui neste papel novas flores,
Preenche com amores e sabores,
Troca todo o vazio por Poesia.

V.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Metamorfose

“Sou o reflexo que n’água tremulava,
Naquele rio que os meus medos funestos
Refletia em vultos inquietos
O grito aprisionado que ululava.

Naquele vil reflexo via-se isto:
Cada dor que senti, cada gemido,
E tudo o que eu teria ainda vivido
Era possível nesse rio ser visto.

Cada pequena parte do meu ser,
No Eu-Superposição de vários Eus.
A simbiose, dos crentes aos ateus,
Que agora aquele rio iria descer.

Nas margens eu via que outros acenavam.
Mas não eram acenos amigáveis.
Eram apelos! Pobres miseráveis:
Insepultos que por terra gritavam!

Sou grato por ter sido sepultado.
Caso contrário, eu, nesta jornada,
Seria péssimo como alma penada
Lamuriando o meu choro engasgado.

E já quando do fim me aproximava,
Tecidos em voraz putrefação
Envolviam-me num manto malsão
Que a minha carne podre devorava.

No final, a cruel dor do abandono
Corroía-me mais do que as bactérias
Cujas finalidades eleutérias
Mantêm todas as vidas de carbono.

E no último heterônimo inda vivo
Alimentarei apenas esperança.
Que ele possa usar a minha herança
Como o seu combustível narrativo.”

Nesses versos, eis o último discurso
Do Eu-lírico tristonho e azarado
Que eu encontrei já morto e sepultado
Bem no ponto final do meu percurso.

A terra que o abraçava calmamente
Tecendo sobre ele uma teia etérea, 
Na decomposição de sua matéria
Nutria-se da sopa putrescente.

E vi florescer lá no chão do Dite
Com os seus cloroplastos aos milhões 
Um girassol saindo dos pulmões 
Que antes sofriam de crônica bronquite.

Virada para a Porta de Marfim,
Aquela flor mostrava uma saída
Numa bela metáfora: a Vida
Não encontrará na Morte qualquer fim.

Com a iluminação da última Gnose
Eu finalizo a minha etérea busca,
Agora, o que é real não mais se ofusca.
A verdade final: Metamorfose.

V.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Crisálida

Camuflada n'árvore
A Crisálida marrom
Espera a estação das flores -
     Lá dentro as asas eclodem
     Na bela metamorfose.

V.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Fuga fugaz

Dê-me apenas remédios, companheiro.
Sem julgamentos, e menos conversa.
Esqueça a causa! Tenho muita pressa.
Quem vive devagar morre ligeiro.

Tenho pena de quem se vai primeiro:
O Eu-lírico que nos versos tropeça. 
Eu rezarei antes que ele se despeça
Ao lado daquele Último Barqueiro.

Espero que ele encontre redenção.
A sua Descida não será em vão!
Ele verá que a vida é cheia de amor.

Já eu, bem, continuarei na boemia,
À base de remédios, noite e dia,
Para não confrontar o meu horror.

V.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A Descida

A escuridão que dentro de mim cresce
Está tornando-se um grande Vazio
Faminto devorando-me a fio.
Meu reflexo não mais se reconhece.

Então, sinto um tremendo calafrio
Enquanto minh'alma ao Inferno desce,
Como se outro caminho não houvesse
Além de abraçar meu lado sombrio.

E lá, o que será que hei de encontrar?
Haverá algum meio para voltar
Ou essa descida só admite ida?

Será que meu ferido coração
Encontrará alguma salvação
Diante dessa descida dolorida?

V.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Fez-se eterna, ó tão efêmera noite.
Como ignis fatuus, breve e brilhante.
Fogo bravo, chicote para açoite
Que cintila de um jeito fascinante.

Fez-se efêmera, ó tão eterna noite,
Fugaz felicidade flamejante.
É fácil se assustar, mas não se afoite,
Há ainda mais surpresas logo adiante.

Uma noite que cabe a vida inteira,
Noite e dia, madrugada alcoviteira.
Fata Morgana ascende no horizonte,

Mas logo desce e para sempre some.
Breve noite eterna que o homem come,
Vê o Sol nascer do barco de Caronte.

V.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Lucita de Aragón

Que sorte ter achado o amor divino!
Nos seus olhos castanhos cheios de vida,
Na bela pelagem preta comprida,
No incondicional amor canino!

Com você a vida não é mais dolorida,
Lembra-me os meus tempos de menino!
Que sorte ter achado o amor divino
Nos seus olhos castanhos cheios de vida!

Foi esse seu bem-querer tão genuíno
Extravasado em cada lambida,
Que felizmente guiou-me até a saída
Do horror virgiliano alcalino.
Que sorte ter achado o amor divino!

V.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Arimã

E no Fim haverá somente o Abismo.
Reino onde um mitológico lunático
Refugia-se de um mal psicossomático
Escondido nas trevas do lirismo.

Nos braços de Arimã, esse dogmático
Professor de um dantesco fatalismo,
Com o seu axiológico hedonismo
Aninha-se no abraço idiossincrático.

Com o choro abafado pelo riso
Da Criatura do Último Juízo
Segue o poeta descendo em espiral.

“Do Nada veio, ao Vazio voltará",
O último verso que ele rimará
Entrelaçado ao Mal primordial.

V.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Ozymandias (P. B. Shelley)

Vindo de antiga Terra encontrei um viajante
Que disse: - Ali estão pernas de pedra enormes,
Decepadas, no deserto não tão distante,
Soterrado, um rosto jaz com feições disformes,
E um sorriso oblíquo de quem era arrogante.
Seu escultor talhou com maestria cada paixão,
Emanando da pedra sem vida vereis
A mão que o zombava e ao que nutria o coração.
Nesse pedestal encontrareis tais escritos:
"Meu nome é Ozimândias, Rei de todos os Reis,
Vede o meu poder e gelai vossos espíritos!”
Nada mais, porém, resta. Além da decadência
Daquelas ruínas vós vereis com nitidez
Apenas areia, e toda sua complacência.

Tradução: V.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Ontem eu não sonhei contigo, infelizmente.
Lia meus pensamentos, do alto, flutuando,
Hora estava amando, outra hora, estava odiando.
Odiando a mim mesmo, minha própria mente.
Sonhos-delírios vistos por quebrada lente:
Caleidoscópio onírico despetalando
As flores do jardim-sonho, fantasiando,
Solitário, sofrendo sozinho, somente.
Tu não estavas naquele sonho, Ma Chérie.
A minha mente - meu reflexo - não sorri.
Não consigo esboçar um sorriso amarelo.
Hoje, tenho esperanças de que sonharei
O sonho que contigo outras vezes sonhei,
Sonho compartilhado, reluzente, belo.

V.


domingo, 2 de novembro de 2025

A infância passou rápido, cresci.
Ficaram em mim marcas e memórias.
Hoje escrevo essas minhas boas histórias:
As bênçãos que não sei se mereci.

Vi as vezes em que vivi vitórias
Nas fotos que não me reconheci.
A infância passou rápido, cresci.
Ficaram em mim marcas e memórias.

Alegrias se foram, entristeci.
Já não conquisto (nem mereço) glórias,
Minhas escolhas são contraditórias,
E agora que estou velho, adoeci.
A infância passou rápido, cresci…

V.


Gosto de ficar em silêncio.
- Silêncio!
Por fora.
Por dentro, chiado ensurdecedor.
Meus pensamentos.
Aos gritos.
Teia de ideias.
Fonte inesgotável.
- Silêncio!
São muitos silêncios.
Por fora.
Por dentro, ruído branco.
Sinais sem sintonia.
- Silêncio!
Por fora.
Por dentro, orquestra.
Músicas misturadas na memória.
Rebobinar, regravar, reverberar.
Aliterar.
- Silêncio!
Um pot-pourri de silêncios.
Por fora.
Por dentro, fila de rodoviária.
Quem chegará?
Quem partirá?
Olás e adeus.
- Silêncio!
Por fora.

V.

sábado, 1 de novembro de 2025

Não escreverei nenhuma poesia.
A verdade é que a vida no papel
Pode ter sabor de mel ou de fel,
De profunda tristeza ou de alegria.

Arcádia é uma espécie de bordel.
Tudo neste papel é utopia.
Meu eu-lírico astuto já sabia:
A minha lira é uma arma cruel.

Um paradoxo em forma de poema.
Já montei meu infeliz estratagema:
Trocarei a lira por algum solvente.

Apagarei da mente a minha Musa
Antes que essa fantástica medusa
Transforme em pedra toda a minha mente.

V.


quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Hoje acordei sem inspiração.
Culpa do antidepressivo.
Preciso escolher entre escrever
E não ficar triste.
Medicado eu sou um péssimo poeta.
Pois é a minha tristeza crônica que me inspira.
Meus traumas.
Meus medos.
O buraco que cavo para me esconder,
É de lá que tiro a argila para fazer minhas tabuletas.
O buraco que cavo para me enterrar,
É de lá que escrevo.
E quando escrevo,
Não tenho vontade de morrer.
Escrever é meu remédio. 
Mas o outro remédio, o receitado,
Caro e cheio de efeitos colaterais,
Que teoricamente me daria mais vontade de viver,
Tira de mim a inspiração.
Tira de mim a única coisa que me define.
Prefiro mil vezes continuar triste
Mas escrevendo. 
Do que anestesiado,
Apático,
Pois o remédio não me deixa feliz,
Apenas não sinto nada,
Por isso, nem escrever eu consigo.
E sem escrever,
Sou tão nada quanto o que sinto.

V.


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Sinto um enorme peso que me esmaga,
Comprime minha mente deprimida.
Vivo nesta existência corrompida
Sofrendo as intempéries de uma praga.

Ferido pela minha própria adaga:
Pena que escreve sobre a dor da vida.
Diabolicamente dolorida,
Sangrando ao passo que a vida naufraga.

Uma dor que deságua nos meus versos,
Fruto dos pensamentos mais perversos
Que alguém poderia ter sobre si mesmo.

Desisti de buscar expiação.
Minh’alma já não tem mais salvação,
Eu vagarei por este mundo a esmo.

V.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Palavra é faca.
Estreita e larga.
Na ponta da língua,
Amarga.
A palavra rasga
O silêncio que engasga
Até o mais introvertido,
O menos divertido.
A palavra acre.
Que corrói o lacre.
O selo do silêncio.
A palavra é água
Que apaga o incêndio.
É vento.
É moinho.
É farinha.
É fubá.
A palavra é má,
E é boa.
E não tem valor algum.
Amoral.
Imoral.
A palavra é zero.
A palavra é um.
É diferente de zero até quando é nula.
Até quando é chula.
Até quando é chucra.
Vale pra quem perde,
Vale pra quem lucra.
A palavra é forte.
É fraca.
É vaca.
É boi.
É bezerro.
Palavra é nascimento,
Às vezes,
Enterro.

V.


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Eu tenho muitos sonhos.
Em cada sonho, um eu-onírico.
Que sonha outros sonhos mais.
Sonhos dentro de sonhos.
Onirismo infinito.
Às vezes sonho que sou um vilão
Que sonha ser um herói.
E vice-versa.
Às vezes eu não estou no sonho,
E é como se eu assistisse,
Do alto do meu subconsciente,
O sonho de outra pessoa.
Talvez seja isso mesmo.
Muitas vezes eu sonho acordado.
Um sonho meu,
Em que sou meu próprio eu-onírico.
Às vezes eu escrevo nos sonhos.
Poesias oníricas.
Talvez eu esteja sonhando agora.

V.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sonhei que caía num buraco.
Buraco sem fim.
Infinitamente fundo.
Infinitamente largo.
Sonhei que caía num buraco.
Acordei assustado,
Chutei a parede no susto.
Na cama havia uma pá.
E muita terra.
Minhas mãos estavam imundas.
E meu pé doía. 
Sonhei que caía num buraco.
Buraco sem fim,
Cavado por mim.

V.


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Tuas asas, a mais pura psicodelia.
Quando batem, uma ventania:
Eólica força da natureza,
Do ghibli ao harmatão.
O olho do furacão.
O sopro, o tufão.
Eu, cata-vento.
Tu, ventania.
Tuas asas,
De Fada,
Batem.
E voo.
Pra
Ti.

V.

Haicai dos olhos que riem

Seu olhar sorridente
Esquenta o meu coração,
Bem-querer ardente!

V.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O último solilóquio de um cigarro

Seu beijo molhado.
A umidade e o calor dos lábios,
O leve aperto dos dedos.
Indicador e médio.
Estou nas suas mãos.
Eu ardo.
Em brasa.
Sou totalmente consumido.
Agora corro nas suas veias
Como um espectro daquilo que um dia fui.
Ela se livra do que restou de mim,
Intoxicada.
Envenenada.
E, então, sou apagado.
Descartado.
Eu, que fui chama.
Eu, que fui brasa.
Eu, que fui fumaça.
Agora sou apenas uma memória.
Uma memória marcada pelo seu beijo,
Consumida pelo seu beijo,
Enterrada em cinzas.

V.


sábado, 27 de setembro de 2025

O Fado do Boêmio

Eu sou um inveterado bon-vivant.
O clássico boêmio emocionado,
Mas por dentro tão triste quanto um fado,
Por bebida, eu daria a alma a Satã.

Não levarei aflições para o divã.
Se guardá-las eu não serei julgado,
E terei apenas da vida gozado
Sem me preocupar com o amanhã.

O que mais poderia querer um boêmio?
Viver a boa vida é meu único prêmio,
Além de um doloroso final trágico.

Farras, amigos  e um amor inglório,
Mas no fim, estará vazio, o velório,
Deste poeta vadio e verborrágico.

V.


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Aquele som rasgou a mortalha inteira.
De ponta a ponta, a gélida mortalha
Que separava os “deuses” da “gentalha”
Precisa, agora, de uma costureira.

E quem diria que o grito de um canalha
Colocaria um fim nessa fronteira!?
Nem a morte de um santo na fogueira
Havia rasgado tão divina malha!

Colocou toda a vil humanidade
De frente para a ignóbil “santidade”.
Um grito que tentaram abafar.

Grito de desespero que ainda ecoa,
Que tomou da cabeça oca a coroa,
Corrigiu uma injustiça milenar.

V.


segunda-feira, 14 de julho de 2025

Eu tusso. E minha tosse preenche o ar.
O ar já pesado e triste ao som do escarro
De quem saboreia o beijo do cigarro
Padecendo de doença pulmonar.

À noite, a tosse piora, falta-me ar!
E na garganta sinto esse pigarro,
Que ninguém sabe se é ácido ou catarro,
Mas com certeza ainda há de me matar.

Invejo quem nasceu com sadios brônquios,
Com suas vias aéreas livres de micróbios
Maléficos, e sem chiado no peito.

Fraco e anêmico está meu corpo físico,
Com a tristeza típica do tísico,
Esmorecido num último leito.

V.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

As minhas rimas são monocromáticas
E soam pálidas como a voz de um tísico,
Assim como qualquer recurso heurístico,
São cinzentas e, às vezes, problemáticas.

Minhas sílabas tônicas asmáticas
Evanescem no “espelho meu” narcísico.
O reflexo daquilo que era físico,
Enterrado, jaz em rimas pragmáticas.

Minhas estrofes morrem de um mal súbito,
Pois da escansão tornei-me outro prosélito!
Agora, sou refém desta hostil métrica.

Os meus extravagantes versos cínicos
Abrilhantam os vis poemas satíricos
Do horror pessoal padrão da minha estética.

V.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Eu sou o baralho marcado
Que se corta de maneira ludibriosa.
Eu sou a carta do Enforcado
Puxada por uma charlatã ardilosa.

Eu sou a hera venenosa
Que há de deixar-te intoxicado.
Eu sou a desilusão amorosa
Que deixou teu coração calcificado.

Eu minto. Eu finjo. Eu fujo.
Eu não passo de um bicho sujo
Viciado no próprio reflexo.

Eu sou a rima perdida na tradução.
A anedota antológica da aliteração
Forçada em um verso desconexo.

V.


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Chegou a temida noite de domingo.
A Besta-fera de dez diademas
Que me rasga o peito buscando poemas.
Mas quase nada rima com domingo!

Eu não encontro nem mesmo um "i" sem pingo!
Os domingos são como um par de algemas,
E das mãos presas vertem apostemas.
A razão de todo o meu choramingo.

Que dia maldito! E há quem chame de "santo".
O maior culpado por esse meu pranto
Que nunca me ajudaram a enxugar.

Para ser justo, a Besta-fera sou eu.
Um monstro que destrói tudo o que é meu
Na esperança de a tristeza expurgar.

V.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Às vezes eu até falo sobre amor.
Já escrevi poemas lindos e românticos,
Quem recebeu algum desses belos cânticos
Lembrará para sempre deste autor.

Uma doce poesia é como alfajor!
Um texto de amor em versos patéticos.
Azar desses que não têm dons poéticos,
Patetas incapazes de compor.

Piadas à parte (de fato, arrogância),
Eu não tenho toda essa rutilância,
Sou um monstro de completa escuridão.

E se há vezes em que meu papel brilha,
Se eu escrevo sobre alguma maravilha,
É porque eu sou um hábil charlatão.

V.


domingo, 26 de janeiro de 2025

Vaguei cabisbaixo e com vergonha
Por um mundo culto e recatado.
Com medo de gafes e ofensas
Sentava-me e calava-me
Como se culpado fosse.
Retirando de mim o próprio eu
Confundi o Ser com o Propósito.
Afoguei-me na minha própria amargura
E perdi-me em mim mesmo.
Apenas seguia sonhando com o dia
Em que uma doce alegria
Salgaria minh'alma insossa.

V.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Buscando meu heterônimo pelo Éter
Achei apenas seus restos de matéria.
E na sanguinolência da bactéria
Acabou-se a altivez do mau-caráter.

Virou húmus, com a graça de Deméter.
O sangue apodrecido em cada artéria
Aberta, exala sua última blasfêmia.
E, dos vermes, tornou-se Alma Mater.

É um ciclo de incertezas ontológicas;
É a Geena e suas forças sarcofágicas.
O fim do pensamento racional.

É nessa quintessência fria e hipotética
Que se devora, assim, de forma poética,
A arrogância de quem não era especial.

V.


domingo, 5 de janeiro de 2025

Esta escuridão no meu quarto assombra-me.
Já passa da meia-noite. Acendo a luz.
Apago a escuridão que me seduz,
Encaro o canto obscuro e um tanto infame.

E digo: "se há alguém aí, fale o seu nome!"
Silêncio, apenas, mas algo entreluz...
Prontamente, uno meus dedos em cruz!
Sinto que nos pulmões o ar já me some.

As pernas trepidam, falta-me o chão.
Sufoco com o horror e vejo, então:
É a lâmina da Morte que cintila.

Ouço o rangido da tesoura de Átropos.
E, com meus pensamentos misantropos,
Zombo da foice na ânsia de senti-la.

V.