sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Fuga fugaz

Dê-me apenas remédios, companheiro.
Sem julgamentos, e menos conversa.
Esqueça a causa! Tenho muita pressa.
Quem vive devagar morre ligeiro.

Tenho pena de quem se vai primeiro:
O Eu-lírico que nos versos tropeça. 
Eu rezarei antes que ele se despeça
Ao lado daquele Último Barqueiro.

Espero que ele encontre redenção.
A sua Descida não será em vão!
Ele verá que a vida é cheia de amor.

Já eu, bem, continuarei na boemia,
À base de remédios, noite e dia,
Para não confrontar o meu horror.

V.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A Descida

A escuridão que dentro de mim cresce
Está tornando-se um grande Vazio
Faminto devorando-me a fio.
Meu reflexo não mais se reconhece.

Então, sinto um tremendo calafrio
Enquanto minh'alma ao Inferno desce,
Como se outro caminho não houvesse
Além de abraçar meu lado sombrio.

E lá, o que será que hei de encontrar?
Haverá algum meio para voltar
Ou essa descida só admite ida?

Será que meu ferido coração
Encontrará alguma salvação
Diante dessa descida dolorida?

V.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Fez-se eterna, ó tão efêmera noite.
Como ignis fatuus, breve e brilhante.
Fogo bravo, chicote para açoite
Que cintila de um jeito fascinante.

Fez-se efêmera, ó tão eterna noite,
Fugaz felicidade flamejante.
É fácil se assustar, mas não se afoite,
Há ainda mais surpresas logo adiante.

Uma noite que cabe a vida inteira,
Noite e dia, madrugada alcoviteira.
Fata Morgana ascende no horizonte,

Mas logo desce e para sempre some.
Breve noite eterna que o homem come,
Vê o Sol nascer do barco de Caronte.

V.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Lucita de Aragón

Que sorte ter achado o amor divino!
Nos seus olhos castanhos cheios de vida,
Na bela pelagem preta comprida,
No incondicional amor canino!

Com você a vida não é mais dolorida,
Lembra-me os meus tempos de menino!
Que sorte ter achado o amor divino
Nos seus olhos castanhos cheios de vida!

Foi esse seu bem-querer tão genuíno
Extravasado em cada lambida,
Que felizmente guiou-me até a saída
Do horror virgiliano alcalino.
Que sorte ter achado o amor divino!

V.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Arimã

E no Fim haverá somente o Abismo.
Reino onde um mitológico lunático
Refugia-se de um mal psicossomático
Escondido nas trevas do lirismo.

Nos braços de Arimã, esse dogmático
Professor de um dantesco fatalismo,
Com o seu axiológico hedonismo
Aninha-se no abraço idiossincrático.

Com o choro abafado pelo riso
Da Criatura do Último Juízo
Segue o poeta descendo em espiral.

“Do Nada veio, ao Vazio voltará",
O último verso que ele rimará
Entrelaçado ao Mal primordial.

V.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Ozymandias (P. B. Shelley)

Vindo de antiga Terra encontrei um viajante
Que disse: - Ali estão pernas de pedra enormes,
Decepadas, no deserto não tão distante,
Soterrado, um rosto jaz com feições disformes,
E um sorriso oblíquo de quem era arrogante.
Seu escultor talhou com maestria cada paixão,
Emanando da pedra sem vida vereis
A mão que o zombava e ao que nutria o coração.
Nesse pedestal encontrareis tais escritos:
"Meu nome é Ozimândias, Rei de todos os Reis,
Vede o meu poder e gelai vossos espíritos!”
Nada mais, porém, resta. Além da decadência
Daquelas ruínas vós vereis com nitidez
Apenas areia, e toda sua complacência.

Tradução: V.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Ontem eu não sonhei contigo, infelizmente.
Lia meus pensamentos, do alto, flutuando,
Hora estava amando, outra hora, estava odiando.
Odiando a mim mesmo, minha própria mente.
Sonhos-delírios vistos por quebrada lente:
Caleidoscópio onírico despetalando
As flores do jardim-sonho, fantasiando,
Solitário, sofrendo sozinho, somente.
Tu não estavas naquele sonho, Ma Chérie.
A minha mente - meu reflexo - não sorri.
Não consigo esboçar um sorriso amarelo.
Hoje, tenho esperanças de que sonharei
O sonho que contigo outras vezes sonhei,
Sonho compartilhado, reluzente, belo.

V.


domingo, 2 de novembro de 2025

A infância passou rápido, cresci.
Ficaram em mim marcas e memórias.
Hoje escrevo essas minhas boas histórias:
As bênçãos que não sei se mereci.

Vi as vezes em que vivi vitórias
Nas fotos que não me reconheci.
A infância passou rápido, cresci.
Ficaram em mim marcas e memórias.

Alegrias se foram, entristeci.
Já não conquisto (nem mereço) glórias,
Minhas escolhas são contraditórias,
E agora que estou velho, adoeci.
A infância passou rápido, cresci…

V.


Gosto de ficar em silêncio.
- Silêncio!
Por fora.
Por dentro, chiado ensurdecedor.
Meus pensamentos.
Aos gritos.
Teia de ideias.
Fonte inesgotável.
- Silêncio!
São muitos silêncios.
Por fora.
Por dentro, ruído branco.
Sinais sem sintonia.
- Silêncio!
Por fora.
Por dentro, orquestra.
Músicas misturadas na memória.
Rebobinar, regravar, reverberar.
Aliterar.
- Silêncio!
Um pot-pourri de silêncios.
Por fora.
Por dentro, fila de rodoviária.
Quem chegará?
Quem partirá?
Olás e adeus.
- Silêncio!
Por fora.

V.

sábado, 1 de novembro de 2025

Não escreverei nenhuma poesia.
A verdade é que a vida no papel
Pode ter sabor de mel ou de fel,
De profunda tristeza ou de alegria.

Arcádia é uma espécie de bordel.
Tudo neste papel é utopia.
Meu eu-lírico astuto já sabia:
A minha lira é uma arma cruel.

Um paradoxo em forma de poema.
Já montei meu infeliz estratagema:
Trocarei a lira por algum solvente.

Apagarei da mente a minha Musa
Antes que essa fantástica medusa
Transforme em pedra toda a minha mente.

V.