quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Hoje acordei sem inspiração.
Culpa do antidepressivo.
Preciso escolher entre escrever
E não ficar triste.
Medicado eu sou um péssimo poeta.
Pois é a minha tristeza crônica que me inspira.
Meus traumas.
Meus medos.
O buraco que cavo para me esconder,
É de lá que tiro a argila para fazer minhas tabuletas.
O buraco que cavo para me enterrar,
É de lá que escrevo.
E quando escrevo,
Não tenho vontade de morrer.
Escrever é meu remédio. 
Mas o outro remédio, o receitado,
Caro e cheio de efeitos colaterais,
Que teoricamente me daria mais vontade de viver,
Tira de mim a inspiração.
Tira de mim a única coisa que me define.
Prefiro mil vezes continuar triste
Mas escrevendo. 
Do que anestesiado,
Apático,
Pois o remédio não me deixa feliz,
Apenas não sinto nada,
Por isso, nem escrever eu consigo.
E sem escrever,
Sou tão nada quanto o que sinto.

V.


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Sinto um enorme peso que me esmaga,
Comprime minha mente deprimida.
Vivo nesta existência corrompida
Sofrendo as intempéries de uma praga.

Ferido pela minha própria adaga:
Pena que escreve sobre a dor da vida.
Diabolicamente dolorida,
Sangrando ao passo que a vida naufraga.

Uma dor que deságua nos meus versos,
Fruto dos pensamentos mais perversos
Que alguém poderia ter sobre si mesmo.

Desisti de buscar expiação.
Minh’alma já não tem mais salvação,
Eu vagarei por este mundo a esmo.

V.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Palavra é faca.
Estreita e larga.
Na ponta da língua,
Amarga.
A palavra rasga
O silêncio que engasga
Até o mais introvertido,
O menos divertido.
A palavra acre.
Que corrói o lacre.
O selo do silêncio.
A palavra é água
Que apaga o incêndio.
É vento.
É moinho.
É farinha.
É fubá.
A palavra é má,
E é boa.
E não tem valor algum.
Amoral.
Imoral.
A palavra é zero.
A palavra é um.
É diferente de zero até quando é nula.
Até quando é chula.
Até quando é chucra.
Vale pra quem perde,
Vale pra quem lucra.
A palavra é forte.
É fraca.
É vaca.
É boi.
É bezerro.
Palavra é nascimento,
Às vezes,
Enterro.

V.


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Eu tenho muitos sonhos.
Em cada sonho, um eu-onírico.
Que sonha outros sonhos mais.
Sonhos dentro de sonhos.
Onirismo infinito.
Às vezes sonho que sou um vilão
Que sonha ser um herói.
E vice-versa.
Às vezes eu não estou no sonho,
E é como se eu assistisse,
Do alto do meu subconsciente,
O sonho de outra pessoa.
Talvez seja isso mesmo.
Muitas vezes eu sonho acordado.
Um sonho meu,
Em que sou meu próprio eu-onírico.
Às vezes eu escrevo nos sonhos.
Poesias oníricas.
Talvez eu esteja sonhando agora.

V.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sonhei que caía num buraco.
Buraco sem fim.
Infinitamente fundo.
Infinitamente largo.
Sonhei que caía num buraco.
Acordei assustado,
Chutei a parede no susto.
Na cama havia uma pá.
E muita terra.
Minhas mãos estavam imundas.
E meu pé doía. 
Sonhei que caía num buraco.
Buraco sem fim,
Cavado por mim.

V.


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Tuas asas, a mais pura psicodelia.
Quando batem, uma ventania:
Eólica força da natureza,
Do ghibli ao harmatão.
O olho do furacão.
O sopro, o tufão.
Eu, cata-vento.
Tu, ventania.
Tuas asas,
De Fada,
Batem.
E voo.
Pra
Ti.

V.

Haicai dos olhos que riem

Seu olhar sorridente
Esquenta o meu coração,
Bem-querer ardente!

V.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O último solilóquio de um cigarro

Seu beijo molhado.
A umidade e o calor dos lábios,
O leve aperto dos dedos.
Indicador e médio.
Estou nas suas mãos.
Eu ardo.
Em brasa.
Sou totalmente consumido.
Agora corro nas suas veias
Como um espectro daquilo que um dia fui.
Ela se livra do que restou de mim,
Intoxicada.
Envenenada.
E, então, sou apagado.
Descartado.
Eu, que fui chama.
Eu, que fui brasa.
Eu, que fui fumaça.
Agora sou apenas uma memória.
Uma memória marcada pelo seu beijo,
Consumida pelo seu beijo,
Enterrada em cinzas.

V.