quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Canibalismo

Beija-me outra vez, e outra, e mais!
E outras mais! Beija-me um beijo infinito.
Um beijo furta-cor, sagrado rito
De amor e de fulgor celestiais.

Beija-me com desejos canibais!
Dá-me mordidas num rito maldito,
Entre gritos de arpejo erudito,
Presentes dos teus lábios imortais.

E transcenda e ascenda, e então, acenda!
O beijo em labareda de oferenda
Que transubstanciará nosso calor.

Beija-me agora, como ontem beijaste.
Com furor e violência maltrataste
Meus lábios com prazer e muito amor.

V.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Caça ao tesouro

Procuro-te nos meus sonhos a fio,
Correndo entre as Antusas, ofegante,
No jardim do meu sonho hesitante
De amor cortante como vento frio.

No sonho, ouço o alaúde e o assobio
De quem observa estático e distante
A inevitável queda fulminante
Numa paixão em profundo desvario.

Co'a bênção de bailantes Ninfas-flores,
Marchando heroico ao som dos trovadores,
Carrego-te comigo na memória.

Passo a passo, mais um passo insensato,
Fiz-te meu grão tesouro, doce Erato:
O x marcado nesta viagem flórea.

V.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Apoteose

Eu quero escrever meus versos em ti;
Teu corpo será meu tomo sagrado.
Sigo completamente hipnotizado
Em direção a um forte frenesi.

Considero-me bem-afortunado
Pois te amei e o teu amor eu conheci.
À tua divina luz não resisti,
Fui apoteoticamente arrebatado.

Apaixonei-me ali, perdidamente,
Na tua propriedade iridescente:
Uma aura faiscante e esplendorosa.

Arco-íris que me guia ao pote d’ouro,
Confiarei na tua Vênus em Touro
Escandalosamente carinhosa.

V.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Ó Quimera! Minha Quimera!

Ó Quimera, ascende! Ó Quimera!
Levar-te-ei ao infinito, além-céu,
Lá onde as casas são favos de mel
E é permanentemente primavera.

Pois de ti não é digna esta quase esfera.
Planeta azul vagando triste ao léu,
Girando como eterno Carrossel,
Cuja mediocridade é o que impera.

Este mundo tão gris não te merece.
Teu lugar é Arcádia, doce Fada,
Na imortalidade da poesia.

És livre para amar, vai e floresce,
Sê quimericamente exagerada
E nunca negocies a tua alegria.

V.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Soneto da perdição

Eu mergulhei na eterna Danação.
Por teus beijos minh'alma eu vendi.
Não temo o calor pois muito já ardi,
Com o teu toque sendo a ignição.

E toda a sanidade que eu perdi
Foi no teu mar, bravia rebentação.
Nas grandes ondas entrei em combustão,
No oceano do teu colo, transcendi.

Entre estrelas-do-mar e caravelas,
Belos corais em vivas aquarelas
Naquela tela alvíssima, o teu rosto.

Do sonho à tentação, um novo sonho,
Do mar à perdição do amor, suponho.
No inferno, levo na boca o teu gosto.

V.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Amor Cósmico

Amo-te em silêncio,
De longe, tão, tão distante.
Amo-te em arroubos -
       Amo-te doutra galáxia,
       Do centro da Supernova.

Nos aglomerados,
E nos sistemas solares,
Poeiras, satélites -
       No céu serão conectados
       Belos pontos cheios de vida.

Amor cosmológico
Numa precessão errática.
Amor fora de órbita.
       Amo-te dos céus, do espaço.
       Amo-te do mar, da Terra.

Amo-te em silêncio.
Mas a minha poesia
O silêncio quebra -
       Reverbera em versos livres
       Porém com muitas amarras.

Amo-te de novo,
E de novo… e outra vez,
Mas já não te digo -
       Não sabes que te amo tanto,
       Que amo astronomicamente.

Amo cada estrela
Que orbita em aglomerados
Por todo o teu corpo -
       Corpo cintilante, cósmico.
       Corpo radiante, alquímico.

V.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Soneto dos olhos que riem

Existe algo divino no teu olhar.
Teus olhos sorridentes são poesia,
Possuem hipnotizante simetria
Como uma bela nuvem estelar.

Personificação do que é Sonhar,
Nova definição de Fantasia.
Ainda não existe uma teoria
Que este olhar consiga explicar.

Eu quero mergulhar neste sorriso,
Perder completamente o juízo,
Achar paz nos teus olhos de avelã.

Leio-te em poesias, ardo em desejo.
E quando sorris, és tudo que vejo:
Minha Vênus que brilha de manhã.

V.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Floral frutado

E como a primavera as flores ama,
Amo-te também, a ti e ao teu perfume.
Guia-me como um som em alto volume
À viagem encantada que me chama.

Pelo teu cheiro o meu coração clama.
Sou teu como da noite é o vaga-lume.
Fulminante paixão em perene flume
Afoga o peito que por ti se inflama.

Floral frutado, doce caramelo,
Que quando me atravessa eu desmantelo
E perco-me em desejos proibidos!

O teu onírico aroma é surreal,
Eu nunca conheci nada igual,
Entorpece cada um dos meus sentidos.

V.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Monólogo de uma folha em branco

Já fui vida. Agora não sou mais.
Ornamentava o mundo com as flores
De pétalas sedosas, multicores,
Que em mim nasciam em belos fractais.

Já fui vida. Agora não sou mais.
Sou apenas uma folha de papel
Em branco, ainda virgem de pincel,
Com saudades dos meus padrões florais.

Antes eu tinha cores e sabores,
Agora, sou apenas celulose
Processada, prensada e em psicose,
Retroalimentando as minhas dores.

Sigo esperando na gaveta escura,
Longe de qualquer raio quente de Sol,
E tentando encontrar neste crisol
Uma saída para esta tortura.

Onde estão minhas flores? Meus sabores?
E o formoso Sol que me alimentava?
O Sol que as minhas folhas esquentava
E que dava ao meu corpo várias cores.

Já fui vida. Agora estou vazia.
Fui esvaziada de significados.
Danada folha em branco nos dois lados
Que anseia viver outra vez um dia.

Darias tu um fim à minha agonia?
Põe aqui neste papel novas flores,
Preenche com amores e sabores,
Troca todo o vazio por Poesia.

V.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Metamorfose

“Sou o reflexo que n’água tremulava,
Naquele rio que os meus medos funestos
Refletia em vultos inquietos
O grito aprisionado que ululava.

Naquele vil reflexo via-se isto:
Cada dor que senti, cada gemido,
E tudo o que eu teria ainda vivido
Era possível nesse rio ser visto.

Cada pequena parte do meu ser,
No Eu-Superposição de vários Eus.
A simbiose, dos crentes aos ateus,
Que agora aquele rio iria descer.

Nas margens eu via que outros acenavam.
Mas não eram acenos amigáveis.
Eram apelos! Pobres miseráveis:
Insepultos que por terra gritavam!

Sou grato por ter sido sepultado.
Caso contrário, eu, nesta jornada,
Seria péssimo como alma penada
Lamuriando o meu choro engasgado.

E já quando do fim me aproximava,
Tecidos em voraz putrefação
Envolviam-me num manto malsão
Que a minha carne podre devorava.

No final, a cruel dor do abandono
Corroía-me mais do que as bactérias
Cujas finalidades eleutérias
Mantêm todas as vidas de carbono.

E no último heterônimo inda vivo
Alimentarei apenas esperança.
Que ele possa usar a minha herança
Como o seu combustível narrativo.”

Nesses versos, eis o último discurso
Do Eu-lírico tristonho e azarado
Que eu encontrei já morto e sepultado
Bem no ponto final do meu percurso.

A terra que o abraçava calmamente
Tecendo sobre ele uma teia etérea, 
Na decomposição de sua matéria
Nutria-se da sopa putrescente.

E vi florescer lá no chão do Dite
Com os seus cloroplastos aos milhões 
Um girassol saindo dos pulmões 
Que antes sofriam de crônica bronquite.

Virada para a Porta de Marfim,
Aquela flor mostrava uma saída
Numa bela metáfora: a Vida
Não encontrará na Morte qualquer fim.

Com a iluminação da última Gnose
Eu finalizo a minha etérea busca,
Agora, o que é real não mais se ofusca.
A verdade final: Metamorfose.

V.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Crisálida

Camuflada n'árvore
A Crisálida marrom
Espera a estação das flores -
     Lá dentro as asas eclodem
     Na bela metamorfose.

V.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025