“Sou o reflexo que n’água tremulava,
Naquele rio que os meus medos funestos
Refletia em vultos inquietos
O grito aprisionado que ululava.
Naquele vil reflexo via-se isto:
Cada dor que senti, cada gemido,
E tudo o que eu teria ainda vivido
Era possível nesse rio ser visto.
Cada pequena parte do meu ser,
No Eu-Superposição de vários Eus.
A simbiose, dos crentes aos ateus,
Que agora aquele rio iria descer.
Nas margens eu via que outros acenavam.
Mas não eram acenos amigáveis.
Eram apelos! Pobres miseráveis:
Insepultos que por terra gritavam!
Sou grato por ter sido sepultado.
Caso contrário, eu, nesta jornada,
Seria péssimo como alma penada
Lamuriando o meu choro engasgado.
E já quando do fim me aproximava,
Tecidos em voraz putrefação
Envolviam-me num manto malsão
Que a minha carne podre devorava.
No final, a cruel dor do abandono
Corroía-me mais do que as bactérias
Cujas finalidades eleutérias
Mantêm todas as vidas de carbono.
E no último heterônimo inda vivo
Alimentarei apenas esperança.
Que ele possa usar a minha herança
Como o seu combustível narrativo.”
Nesses versos, eis o último discurso
Do Eu-lírico tristonho e azarado
Que eu encontrei já morto e sepultado
Bem no ponto final do meu percurso.
A terra que o abraçava calmamente
Tecendo sobre ele uma teia etérea,
Na decomposição de sua matéria
Nutria-se da sopa putrescente.
E vi florescer lá no chão do Dite
Com os seus cloroplastos aos milhões
Um girassol saindo dos pulmões
Que antes sofriam de crônica bronquite.
Virada para a Porta de Marfim,
Aquela flor mostrava uma saída
Numa bela metáfora: a Vida
Não encontrará na Morte qualquer fim.
Com a iluminação da última Gnose
Eu finalizo a minha etérea busca,
Agora, o que é real não mais se ofusca.
A verdade final: Metamorfose.
V.