segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Pecado constelado

N’alvura desse rosto constelado,
Um esplendor: simpático sorriso.
Rapidamente, sem qualquer aviso,
Ao desejo infernal fui arrebatado.

Por ti já desisti do Paraíso.
De bom grado, entreguei-me ao pecado,
Ao proibido, êxtase demasiado
Impuro, causador de prejuízo.

Dor-amor impossível, visceral!
Fatalismo daquilo que é dual,
E que aquele hífen tênue não separa.

Perdido neste mal metalinguístico
D’um poema de amor tão casuístico:
Antes do último verso eu já pecara.

V.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Lira em Ré Maior

És Sol, estrela-mor que me ilumina.
Vou-me elipticamente ao teu redor
Na órbita em escala Ré Maior
Da lira astral que nunca desafina!

O teu brilho áureo, dom de Melquior,
Nesta música cósmica e divina,
Tal qual o efeito da psilocibina,
Dá cheiro à melodia que sei de cor!

O arrepio n'alma, lépida batida
De uma canção purpúrea e proibida
Que une nossas moléculas ridículas;

Gravitacionalmente conectados
E espiritualmente emaranhados
Na rapsódia dual de ondas-partículas.

V.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Canibalismo

Beija-me outra vez, e outra, e mais!
E outras mais! Beija-me um beijo infinito.
Um beijo furta-cor, sagrado rito
De amor e de fulgor celestiais.

Beija-me com desejos canibais!
Dá-me mordidas num rito maldito,
Entre gritos de arpejo erudito,
Presentes dos teus lábios imortais.

E transcenda e ascenda, e então, acenda!
O beijo em labareda de oferenda
Que transubstanciará nosso calor.

Beija-me agora, como ontem beijaste.
Com furor e violência maltrataste
Meus lábios com prazer e muito amor.

V.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Caça ao tesouro

Procuro-te nos meus sonhos a fio,
Correndo entre as Antusas, ofegante,
No jardim do meu sonho hesitante
De amor cortante como vento frio.

No sonho, ouço o alaúde e o assobio
De quem observa estático e distante
A inevitável queda fulminante
Numa paixão em profundo desvario.

Co'a bênção de bailantes Ninfas-flores,
Marchando heroico ao som dos trovadores,
Carrego-te comigo na memória.

Passo a passo, mais um passo insensato,
Fiz-te meu grão tesouro, doce Erato:
O x marcado nesta viagem flórea.

V.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Apoteose

Eu quero escrever meus versos em ti;
Teu corpo será meu tomo sagrado.
Sigo completamente hipnotizado
Em direção a um forte frenesi.

Considero-me bem-afortunado
Pois te amei e o teu amor eu conheci.
À tua divina luz não resisti,
Fui apoteoticamente arrebatado.

Apaixonei-me ali, perdidamente,
Na tua propriedade iridescente:
Uma aura faiscante e esplendorosa.

Arco-íris que me guia ao pote d’ouro,
Confiarei na tua Vênus em Touro
Escandalosamente carinhosa.

V.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Ó Quimera! Minha Quimera!

Ó Quimera, ascende! Ó Quimera!
Levar-te-ei ao infinito, além-céu,
Lá onde as casas são favos de mel
E é permanentemente primavera.

Pois de ti não é digna esta quase esfera.
Planeta azul vagando triste ao léu,
Girando como eterno Carrossel,
Cuja mediocridade é o que impera.

Este mundo tão gris não te merece.
Teu lugar é Arcádia, doce Fada,
Na imortalidade da poesia.

És livre para amar, vai e floresce,
Sê quimericamente exagerada
E nunca negocies a tua alegria.

V.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Soneto da perdição

Eu mergulhei na eterna Danação.
Por teus beijos minh'alma eu vendi.
Não temo o calor pois muito já ardi,
Com o teu toque sendo a ignição.

E toda a sanidade que eu perdi
Foi no teu mar, bravia rebentação.
Nas grandes ondas entrei em combustão,
No oceano do teu colo, transcendi.

Entre estrelas-do-mar e caravelas,
Belos corais em vivas aquarelas
Naquela tela alvíssima, o teu rosto.

Do sonho à tentação, um novo sonho,
Do mar à perdição do amor, suponho.
No inferno, levo na boca o teu gosto.

V.