segunda-feira, 9 de março de 2026

Enfim, o dia que tantos desejaram.
Surpreendente manchete da manhã:
Morreu o inveterado Bon-vivant!
“Não deixará saudades”, completaram.

Muitas pragas das bocas que o beijaram,
Cuspe doce de bala de hortelã.
Das bochechas de rubro flamboiã
Todas as belas pétalas murcharam.

Das noites abraçado às bacantes
O poeta de versos delirantes
Não levou nada para o seu caixão.

E a procissão seguia sem muito alento
Sob vaias no feroz sepultamento
De um não-maniqueísta herói-vilão.

V.

terça-feira, 3 de março de 2026

Esta noite eu sonhei co'a minha morte,
Um sonho com pitada de esperança.
O Ceifador com sede de matança
Livrava-me da dor num limpo corte.

E a foice e a Morte e o fim como uma dança:
Degola sem a bênção de Mavorte.
Culpava uma cruel falta de sorte
Por um fim em tamanha temperança.

Senti, então, que o remorso e a minha dor
Tornavam-me este poço de rancor
Cujo auto-ódio é a única paixão.

Acordei enfurecido pois sabia
Que nesta vida eu não mereceria
A paz deste infeliz sonho malsão.

V.