domingo, 21 de julho de 2024

Não é mais sobre minha tristeza.
Não é mais sobre o que eu queria,
Nem sobre o amor que eu daria.
Não é mais sobre a tua beleza.

Agora é sobre a amarga estranheza
Que sinto ao pensar que me perderia,
E que neste papel encontraria
Mais um soneto sobre ti, ó ex-deusa.

Não é mais o que poderia ter sido.
Não é mais um poema que será lido.
Agora é um pensamento que já não é.

Agora é um sentimento que passou.
Só o papel encharcado de lágrimas ficou.
Meu amor virou uma nota de rodapé¹.

¹ já não é.
Vanderley Aguiar.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

A vida é complexa.
Eu sou real. 
Sentir é complexo.
Sentimento é real.
Vivo entre o real e o imaginário,
Entre o sobrenatural e o ordinário.
Eu sou um ser complexo,
Vivendo uma vida real.
Eu amo, sofro, choro.
Eu sou.
Real.
Complexo.
E mais real ainda é o que sinto.
O mais complexo sentimento.
Que de tão real chega a ser imaginário.
Fictício.
Extraordinário.
Um amor complexo,
Inventado para ser real.

V.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Eu, este poeta triste e melancólico,
Possuo a nobreza enferrujada
De uma alma pobre, enjaulada,
Criada por um deus diabólico.

Perdida entre o literal e o simbólico,
Minha mente cansada, atordoada,
Sente uma culpa exagerada,
Fruto do meu passado católico.

Queria o mesmo fim dos ultrarromânticos.
Ou o dos roqueiros frenéticos,
Que antes dos trinta morreram imortais.

Mas não deixarei legado algum.
Mesmo que ainda viva até cem, cento e um!
Deixarei apenas textos tristes e imorais.

V.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Siga-me e comeremos a Sorte.
Roubaremos o néctar da escuridão,
Encheremos as veias de devassidão
E riremos da cara cínica da Morte.

Acredite, a Vida não devolve caução.
Não importa o tamanho do aporte,
Ou da reza para Cibele, a Consorte
Do Tempo, tu serás devorado. Em vão.

Então, nessa noite, viveremos, enfim.
Beberemos da água de beber, que Jobim
Trouxe da fonte do Poeta medroso.

Quando estivermos ébrios o suficiente,
Espero que a estrela da manhã nos atente.
Darei à minha vida um final esplendoroso.

V.

domingo, 5 de maio de 2024

Vejo faíscas quando deito e penso em ti.
Pode ser a mistura de álcool e Zolpidem,
Mas para esse artífice de rimas, convém
Transformar isso em versos, não resisti.

A ciência por trás das rimas, por ti, subverti,
Sendo essa cascata de faíscas que advém
Da intensidade mística do meu querer bem,
Apenas o jato de rimas faiscantes que verti.

Pensar nela é como um show de luzes.
É uma mistura de fármacos em altas doses.
Assim, a verdade está cada vez mais na cara.

Os efeitos colaterais dessas interações
São idênticos aos efeitos das paixões,
E no teto cintilante tu surges de forma clara.

V.


Até mesmo um poeta tem um limite
Do quanto ele aguenta sofrer
Por um amor que nunca poderá acontecer,
E que só serve para deixá-lo triste.

Mas o que mais ele poderia fazer,
Se toda hora que deita uma rima insiste
Em pulsar no seu peito triste,
Fazendo-o perder o sono e voltar a escrever?

Escrever para si mesmo, pois ela não lerá,
E provavelmente jamais saberá
Do quanto ele inadvertidamente a amou.

E como amou! Porém em sonhos e poesias,
Sofrendo das mais diversas discrasias,
Buscando a Quimera que jamais alcançou.

V.

sábado, 27 de abril de 2024

Nunca mais escreverei uma poesia.
Quebro a parede que me separa do papel,
E que o faz uma testemunha infiel,
De um amor que apenas eu escrevia.

Arcádia não passa de um bordel
Onde a vida além-papel é uma utopia.
E que o safado do meu eu-lírico já sabia:
Viver a vida idílica é uma morte cruel!

Meu último paradoxo em forma de poema.
O papel é o carrasco de uma rima blasfema,
E a arma dessa Inquisição é uma borracha.

Apagando o papel quebra-se a parede,
Desaba o meu eu-lírico morto de sede,
E nessa metáfora poesia nenhuma se acha.

V.